sem aspas
textos, viagens e letrificações


Terça-feira, Novembro 30, 2010

pessoas queridas,

antes de tudo, perdão pelo sumiço. foi um semestre de intenso trabalho e viagens, precisei dar uma longa pausa. e durante esse tempo, resolvi mudar de endereço. foram muitos anos nesse aqui, mas... a roupa ficou velha, sem graça, um leve cheiro de guardado me incomodando... como esse blogger da globo é um dos mais antigos, não há quase qualquer recurso para que eu possa fazer uma reforma. portanto, decidi me mudar. o domínio sem aspas é um tanto difícil de achar dando sopa, por isso, precisei mudar também de nome: agora estou no "sinto sinto sinto e escrevo". mudei a roupa, o nome, mas o meu peito e as palavras que dele saem continuam o mesmo. ou talvez não: foram tantos anos aqui que o tempo já se encarregou de trazer novas coisas para eles.

vamos à casa nova? www.sintosintosinto.blogspot.com (esse editor de blog é tão antigo que nem associar o texto a um link eu tô conseguindo, creiam). digitem, please, e alterem o endereço nos bookmarks! o carinho de vocês vai continuar sendo essencial - e especial.

novamente: www.sintosintosinto.blogspot.com

beijos e carinhos e obrigadas a todos!

posted by CAMILA LORDELO | 12:56 PM
com aspas:


Segunda-feira, Julho 19, 2010

Ser observador. Mas não a ponto de se tornar o mistério.

Tornando-se um mistério, cava-se um abismo em volta de si. Os olhares se aproximam, mas o peito teme. O interesse é pela curiosidade, pelo desafio, não pela natureza romântica da atração. Quero ser simples, de portas abertas e mobília confortável, quero ser o café fresco com o riso leve pelo prazer da companhia: seja bem vindo. Mistérios me soam distância, um pouco, não me apetece dedicar meu tempo a desvendá-los, fazer disso uma missão (mas respeito para quem o é). Sou do que se espalha, sou do que é transparente: abertos é que são os meus braços.

posted by CAMILA LORDELO | 3:27 PM
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Segunda-feira, Junho 14, 2010

sem restrição

aos de risos largos
amem
aos de peito estreito
amem
aos de olhos doces
aos de corpos em chamas
aos em paixão plena
e aos que ainda clamam
aos que brindam em bares
aos que dormem em pares
aos que nada querem
aos que em febre ardem
aos que cospem
aos que beijam
aos que sofrem
aos que espreitam
aos que amarguram,
e aos que se doam
aos que conjuram
aos que perdoam
aos que dançam
aos que não cansam
aos que não cansam...

aos que respiram
- todos!
amem
sem restrição ou mais tardes
que do amanhã
somos tolos
nada,
nada, nada
se sabe

posted by CAMILA LORDELO | 12:17 AM
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Segunda-feira, Março 01, 2010

lullaby para o filho que um dia eu terei...

Canto uma canção de ninar
Pra você que ainda nem existe
Pra você que já me faz nada triste
Antes mesmo de acontecer

Vai brotar daqui de dentro
Nascer de algum momento
Feliz, como eu quis
Um monumento ao amor

Vai ser lindo
Tão pequeno
Tão suave
Tão sereno
Vai ter nome de paz

Vou te pôr no peito
No começo ainda sem jeito
Mas depois (e para sempre)
Será esse o seu lugar

Vou te amar, vou te amar
Muito mais que o infinito
Vou te amar, vou te amar
O amor do mais bonito
Que alguém pode dedicar

posted by CAMILA LORDELO | 4:28 PM
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Segunda-feira, Janeiro 25, 2010

tenho em meus olhos
todo o resto
do meu corpo

dançam neles
os meus movimentos
os meus sentimentos
as minhas intenções

deslizo-os feito mãos
são sedentos

escrevo-me nas linhas íris
são atentos

sou por eles sim,
quente, morna
sou por eles não

no piscar
no acender
no brilhar
no esmaecer

entre volúpias
de pálpebras
e abraços
de cílios

é com os olhos
que eu me expresso
é com os olhos
que eu mais digo

posted by CAMILA LORDELO | 5:25 PM
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Segunda-feira, Janeiro 11, 2010

combustível na reserva

se não ardo
o meu lado que arte
sou apenas parte
metade vazio
metade metade

se não cavo
o meu lado que sente
sou corpo
e não mente
anoiteço, desaconteço

se não livro
a seta que fere
se não leio
lábios e sonhos
se não como
do que me alimenta
- a tinta, a dor, o riso
se não piso
nos chãos que invento
se sigo mantendo o juízo
se não quero
à torto e esquerdo
se não morro
de amor
ou de medo

eu não sou
eu não vôo
minhalma quase inexiste
feito olhos
que não brilham

triste

posted by CAMILA LORDELO | 12:56 PM
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Quarta-feira, Dezembro 09, 2009

poema de apertar as bochechas ou
da apaixonada que eu um dia já fui


Eu te amo um amor tonto.
É seu e pronto.

Sei lá o que vem, pouco importa
Sei lá se eu vou ou vou ficar
Sei lá o que a vida me guarda
Sei lá o quanto há de durar

O seu olho é a coisa mais linda
Seu sorriso é a coisa mais linda
O seu corpo é a coisa mais linda
E feito de tantas coisas mais lindas
Você vira
uma só

posted by CAMILA LORDELO | 11:50 AM
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Terça-feira, Novembro 17, 2009

momento

os olhos dele
indecisos
se verdes ou castanhos
se tristes ou alegres
reticentes ou concisos
ali tão imprecisos
a me encararem

os olhos dele
indecisos
as palavras acompanham:
também elas hesitam
também elas estranham
se perdem na boca
que tão bem
conhece a minha...

posted by CAMILA LORDELO | 10:16 AM
com aspas:


Quarta-feira, Novembro 04, 2009

(descrição de cena)

Escorro meus olhos em você
Desejo
Percorro os dedos na taça
Intenção
Arrepios visitam o de dentro
Calor
Meia noite de reveillon
No coração

posted by CAMILA LORDELO | 6:02 PM
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Terça-feira, Outubro 06, 2009

Devaneio noturno

Vinícius, eu te leio e eu te grifo, como fiz com poucas literais paixões (não tive muitas, ainda me falta tanto para percorrer). Quase nunca ouso marcar um livro - um quê de inocência cativada - para que ele me surpreenda todas as novas vezes em que eu lhe passear os olhos, para que me arrebate de intenso, igualzinho você me faz. Eu te grifo como se emoldurasse as suas palavras nas estantes dessa minha cabeça coração, porque é tudo tão lindo o que você escreve, e mais lindo ainda é tudo o que você sente e tudo o que você é (deixa eu te fazer verbo presente). Há na minha mesa, agora, três copos de água abandonados há dias e horas e eu me pergunto, sozinha no quarto, sozinha na noite, sozinha nos sonhos, que sede é essa que tem me tomado e me feito ansiosa; que sede é essa que bebendo não passa, que enfileirando copos apenas me tira espaço para o descarregar de sentimentos que é escrever. Mas eu esqueço da sede e sorrio aqui te lendo, poeta, segundos antes sorrateiro me sorrindo na estante, porque sinto que amor em você é matéria, é essência, é corpo e é alma, é avesso e é externo, é causa e consequência. Amor é todo você. Aí que eu fico assim toda inspirada e, embora a sede continue, me cutuque e me peça um papo cabeça com um analista, eu me preencho, eu me perfumo de letras e palavras, eu aquarelo meus discursos e minhas intenções. Fico assim, toda refletindo você, toda cheia de uma graça carioca que natural eu nunca tive, refletindo o sol de um dia bonito no calçadão. Me desce um correr de dedos voraz e doce, ao mesmo tempo, como se eu pudesse compor, como se eu pudesse pintar, como se eu pudesse escrever, tudo isso, com tamanha beleza. Como se, apenas – nem de longe é fato, mas ousa por instantes experimentar a liberdade involuntária de um dia vir a ser. Eu te leio e te grifo, Vinícius, cheia de novas certezas e refrescos da memória, porque é exatamente o mesmo que você me faz: me marca profunda, poética e apaixonadamente.

posted by CAMILA LORDELO | 12:10 PM
com aspas:


Segunda-feira, Setembro 21, 2009

NY

Guardo New York com cheiro de novidade, visão de pés sorrindo caminhos e poeira de cidade grande abraçada à pele. Ela tem cheiro de gente, de todas as gentes, de todas as partes do mundo; ela é a cidade que corre e que corre e que, apesar dessa face de concreto e espelhados e dourados e tijolos, tem tanto a oferecer. Eu a observo com carinho e afeição, porque é meu o meu tempo. Guardo suas esquinas como se fossem todas elas portas – levam-me a sensações, pessoas, descobertas, minutos vividos todos com alguma coisa de especial. Garanto: se estiver propenso, há tanto para o de dentro em NY - embora a cidade as vezes se esforce para encantar o oposto. Há solidão nas ruas, apesar dos milhões de passantes. Há rebeldia nos silêncios, mensagens discretas nos headphones, há as cores e os planos das pessoas, há as possibilidades. Há muito de juventude, de conhecimento, há algum pavor iminente e constante, uma risada meio shy, música, música e música no ar. Há a arte das pequenas coisas, canecas de cerâmica, camisetas de corações, meninos deitados no verde dos parques; rabiscos na calçada, glamour pelas avenidas, olhos passeando por hemingways no metrô, cartazes de filmes, flyers de alguma cool party going on por aí. Há uma mistura de idiomas e de desejos, que tantas vezes coincidem. Desejos de romance ou de apenas algum date; desejo de ser grande, de ser gente, de ser MOMA, de ter horas para gastar em fotos de pontes, de encontros com amigos, em shows que – wow! - vão acontecer. NY é um muito impossível de se enumerar completamente, embora seja perfeita para tanto, porque renasce a cada instante em tudo que lhe surge. Vivi os seus segredos, inventei os meus enredos temporários, conheci a superfícies de algumas poucas almas. Me derramei em suas ruas e lugares como se caísse suave num abraço largo. NY é magia de adoráveis conversões: fatos, pessoas, continentes, idéias, diferenças. Uma cidade que não dorme. Mas que sonha.

posted by CAMILA LORDELO | 4:26 PM
com aspas:


Terça-feira, Agosto 11, 2009

Essência

Não tenho vergonha de sentir:
tudo o que possuo
é minha liberdade de ser.
É justo isso
o que me faz forte
o que me faz inteira
o que me faz.
Não tenho vergonha de confessar
O que me acelera o coração
O que me agonia as certezas
Ou que me faz sangrar.
Não tenho:
É lei cá dentro do peito
Guardar só o que foi feito
para tanto.
Se fere, derramo.
Se me repele, esclareço.
Se amo, entrego.
Se gosto, declaro.
Não há represas na minha boca
para o que vem da minha alma:
O rio de amores
que corre dentro de mim
É feliz
porque nasce e brilha
o seu rumo natural.
(Mesmo o fazendo sozinho).
Ainda que se aproveitem
Dessa minha franqueza de ser
Ainda que me julguem tola
Ou incapaz de me conter
Ainda que me diminuam,
Ou que não me entendam,
Por tanto me expor transparente
Serei assim
Como sou:
Sentimento em matéria bruta
jamais aprisionado.

posted by CAMILA LORDELO | 2:37 PM
com aspas:


Quinta-feira, Julho 23, 2009

coming

Ainda não é agosto, mas olhei para o lado e era o que o meu calendário marcava. Inconsciente: desejo amanhã agosto. E tudo o que ele vai me trazer. De começo, algumas agonias, correrias – mas depois, recompensas. Aprendizado e, em seguida, vida. Do melhor sabor. Da melhor espécie. Agosto vai me trazer mundos, pessoas, descobertas, palavras novas, sensações. Vai me vestir cores e sugerir poses, serei um pouco do que ainda não sou – apenas por não ter como ser. E eu vou amá-lo como às minhas mais vivas lembranças, como aquilo que me irriga de vontades e luta contra a rotina, me encharcando de sonhos e continuações. Agosto me olha, como em um canto de bar, sedutor. E eu sorrio, a caminho de seus braços.

posted by CAMILA LORDELO | 4:57 PM
com aspas:


Segunda-feira, Julho 13, 2009

amplitudes

Sinto que é preciso que eu me encharque de amor para poder seguir. Porque o amor é a minha redenção, a minha cura incontestável. Me forra os passos e me enobrece as intenções, ainda que a graça dos dias se dê por sumida. Tira minha alma para dançar, o amor. Assopra o ardor das agruras. Meus olhos são maiores, por conta dele; meu abraço também. Amplio as paredes do coração, deixo de me ater a pequenas coisas para ser mais, para compreender mais (esse que é o verbo que mais me aperta os pensamentos). Compreendo se amo. E me deixo levar sem a insistente apreensão do saber para onde: simplesmente fluo. Como se me libertasse, me livrasse das amarras, todas.

Falo não do amor romântico, apenas, mas do amor na sua maior concepção: o amor a tudo. O prazer em tudo, a paz que há em toda coisa que existe (tudo tem sua paz). Uma espécie de maturidade, de sobriedade doce... uma grandeza de dentro que me faz melhor e humana em proporções absurdas.

Os dias nem sempre têm sido fáceis, mas é esse o amor que me toma pelas mãos. Passeio com ele pelas ruas, amando o mundo e o meu destino, na certeza de plenitudes por vir.

posted by CAMILA LORDELO | 4:44 PM
com aspas:


Terça-feira, Julho 07, 2009

de dentro de um táxi



Eu vi o Rio grávido
Prestes a dar a luz
Ao dia
Quanta poesia é possível caber
Nessa cidade-amor?

Seus recortes que embriagam
Suas cores nas estantes
Uma foto a cada instante
Desses mares que desaguam

Dentro de mim
Rio
De tudo que é lindo
De tudo que é tão
Rio
Nessa sua beleza
Mãe, imensidão
Rio
Porque não há outra coisa
A se fazer
Rio
Dessa maravilha
que é você

posted by CAMILA LORDELO | 11:45 AM
com aspas:


Quarta-feira, Junho 10, 2009

beicinho (ou saudade ou confissão)

Viver como
Sem carinho?
Viver como
Assim sozinho?
Coração é coisa que bate
Mas não gosta
De doer
E o meu é um cão que late
E rosna
Mas quer dizer
Viver como sem você?
Viver como sem você?

posted by CAMILA LORDELO | 6:50 PM
com aspas:


Sábado, Junho 06, 2009

Canção pós Caetano

Saí abraçando os cantos
Ouvi Caetano,
Ouvi Caetano
E tudo aquilo
Foi tão into me

Dancei nos arcos
Das palavras, Lapa
Sorri com Irene
Num disco voador
Pulsei a batida
Da Base de Guantánamo
Estendi a mão
Ao Cristo Redentor
(e o tirei pra dançar)

Uma força estranha,
alma!
Clarão na Concha,
palmas!

A chuva queria
Mas não ousaria
Ria, menina da Ria,
É Caetano...

posted by CAMILA LORDELO | 11:35 AM
com aspas:


Terça-feira, Maio 19, 2009

[frame de filme]

Feito cais,
sempre à espera
Inda nem é primavera
E eu desejando
o perfume das flores
E as cores, e as cores
Que um dia
Ele pintou
Quanta saudade
essa alma carrega...
Quanta agonia
Esse silêncio encerra...
Por onde andará
A vontade dos olhos meus?
Nos outros?
Nos livros?
Nos teus.

posted by CAMILA LORDELO | 5:53 PM
com aspas:


Terça-feira, Maio 12, 2009

A foto que eu não tirei
Rio de janeiro, 01/05/09

Era calçada, era dia de sol, eram pessoas sorrindo, passeando por Copacabana. E eu. Nessa mesma calçada de passos caminhando para algum lugar, havia o que não foi a nenhum: um menino pobre, sujo, descalço, sem blusa, estendido no chão. Não fosse a respiração e a indiferença das pessoas, diria que não estava mais nesse mundo. Foram segundos essa minha visão: estava atrasada, em companhia de uma amiga, mas não pude passar sem deixar que me doesse a alma. Parei o mundo no meu olhar. Era um menino pobre, sujo, descalço, sem blusa, estirado no meio do caminho das pessoas. Era dia e ele dormia. Ou só tentava não existir. Sobre o seu pequeno peito, o meu choque: uma chupeta de bebê, próxima a sua mão. Uma chupeta. Mais alguém estava vendo aquilo, meu Deus? Eu quis falar: gente, é só uma criança, vejam! Impulso de alguma inocência que me resta. As pessoas e suas pressas, o menino estendido e a única lembrança de que era, ali, uma criança precisando de amor. Eu vi um fato, vi uma foto e muita tristeza. Não tinha nada, o menino, provavelmente nem destino, nem esperança. Apenas aquela lembrança em seu peito de que era, ainda, apesar da miséria que lhe rondava, da fome que lhe dilacerava, da dor da indiferença que lhe comia, dos erros que suas pequenas mãos teriam cometido, um ser indefeso – mesmo que os fatos reais não mais o definissem assim.

Caminhei os meus próximos passos arrastando o pensamento. E apesar de saber que há disso em toda esquina, chorei, desolada. Feito o menino: feito criança.

posted by CAMILA LORDELO | 6:49 PM
com aspas:


Terça-feira, Maio 05, 2009

No pensamento

Beijo é carinho de língua. A língua é a mão da boca. Lábios são prenúncios em forma de maciez, portas que se abrem para o céu (da boca) - que mesmo sem estrelas, também guarda o infinito (quando em momento de beijo). Respirar é borrifar no ar o perfume de amor que está nascendo logo ali embaixo. No abraço suave de seus corpos, as línguas se dizem muito numa mudez de palavras que exclamariam ao máximo, se tivessem voz. Beijo é carinho de língua. A língua é a mão da boca. E essas definições me fizeram passear pelos pêlos um arrepio gostoso...

posted by CAMILA LORDELO | 2:24 PM
com aspas:


Segunda-feira, Abril 20, 2009

Alguém só de passagem

Eu falo demais, ele de menos. Eu transbordo, ele recolhe. Escancaro. Ele ainda mistério. Eu sorrio as canções que sei, comento de um show, divido sonhos antigos, rio com uma piada qualquer. Ele observa. Toca. E boceja.

Mais um copo. (Minha sensação é que eu existo demais. Me sinto julgada a todo instante, pelo meu excesso de mim, de vontades de vida, pelas enumerações. Descabida, será?). Ele não se expressa muito, apesar do sorriso. A luz se mantém acesa, nenhuma costura de fato acontece. E a gente se diz que é, já está mesmo tarde.

Para nossas bocas, beijo. Só. Todo o resto entre nós é silêncio.

posted by CAMILA LORDELO | 11:50 AM
com aspas:


Terça-feira, Abril 14, 2009

Wishlist

Se eu soubesse tocar violão
Se eu soubesse lidar com a espera
Se eu morasse algum tempo em Paris
Se eu terminasse todos os livros que começo
Se eu realmente me despedisse
Das pessoas das quais me despeço
Se eu tivesse mais calma
Se eu fosse menos alma
(Não, isso nem pensar)
Se eu me alimentasse melhor
Se eu tivesse menos medo
Se eu tivesse menos dedos
Nessas pequenas grandes coisas
Da vida

Talvez eu fosse
(ainda?)
mais feliz

posted by CAMILA LORDELO | 4:59 PM
com aspas:


Segunda-feira, Março 30, 2009

(a pedidos ludescos*)

não sou dessas que passam
e arrancam dos homens
um meu deus do céu
nem sou dessas que inspiram
comentários malícia
atraindo feito mel

vim maior por dentro
cá por fora, assim pouca
o que de melhor há em mim
não escondo
debaixo da roupa

e não que eu desdenhe a beleza
muito pelo contrário
também me atrai essa arma
mas é que na falta de corpo
o meu Deus caprichou
no que trago na alma

posted by CAMILA LORDELO | 12:36 PM
com aspas:


Sexta-feira, Março 20, 2009

lembrança viva

saudade do corpo
a noite me arde
vontade que chega
me arrancando os lençóis,
me trancando em urgências

saudade do beijo
do peso
do cheiro
da certeza que era
adormecer
em seus braços

plena
amada
suave
contando no escuro do nosso teto-céu
milhões de estrelas

posted by CAMILA LORDELO | 11:38 AM
com aspas:


Segunda-feira, Março 16, 2009

nova fase

me dispo da roupa
como quem se despe da pele
cameloa
a manhã abençoa
a nova mulher
que nasce em mim

posted by CAMILA LORDELO | 6:42 PM
com aspas:


Sexta-feira, Fevereiro 06, 2009

sentir escrever sentir

O que fazer, quando acordo assim, desejando o dever de apenas sentir? Sentir e transcrever. Viver em linhas. Encontrar o absurdo nos silêncios ou a paz numa criança correndo. Ler o que os olhos escondem, entender o que um aceno carrega. Ceder os meus próprios olhos e abusar da força da minha alma, dando a ela um papel que, na verdade, é presente. Fazer o quê quando o meu desejo é existir? Apenas! E melhor: saber existir. Querer aprender a fazê-lo. Bem que podia ser oferecido patrocínio para isso. Não? Bem que podia a vida me dizer: senta e sente, está tudo certo. Nada de contas, nada de trânsito, nada de campanhas para ontem ou pressa de relógios: me deixe correr pelos teus olhos e depois escorrer nas palavras. Me esperanço em acreditar nessa possibilidade, nos intervalos da carne que seja, entre os afazeres do mundo que manda. Talvez por isso, ou por pura loucura de amar o sentir, insiste em mim essa vontade de emoção, essa vontade de trabalhar não com o corpo, mas com a alma. Solução, inda não encontrei. Mas ela um dia virá. Eu sinto.

Não pense que seria fácil. Acordar e ouvir a manhã. (Atente que ela é grito, na cidade, e você procura o que diz o silêncio). Depois, alimentar o corpo e sair à procura do mesmo para o espírito. Trafegar pelas pessoas. Não acontecer por demais entre elas, para que não se acanhem e deixem de doar a sua parte – apenas estarem ali. Absorver suas dores. E também suas alegrias. Perceber o que passa inocente e tímido entre as pressas, entre as exclamações, entre os braços estendidos à espera de um ônibus ou de uma mão. Sofrer com que chora, ouvir uma história ao telefone, recomendar a uma amiga a receita de um bolo. E fazer desse momento uma receita pra vida. Sofrer também por amor é imprescindível. Chorar, na maioria das vezes, por pura intensidade, drama, até. Sentir o corpo fraco para que expulse as palavras e reflexões. Mas também sorrir por amor, claro. Encontrar nos pequenos fatos as grandes certezas. Saber enxergá-las, usando as lentes do coração. Percebe que é uma procura constante? Um triturar de emoções? Todas, de tudo, de todos, todo o tempo.

E depois de viver e ter guardado todo esses instantes, repousá-las no pensamento, como uma mãe põe seu bebê ao berço. É preciso vivê-los mais uma vez, para que venham inteiros. Dói. Às vezes de tanto ser bom, às vezes de tanto ser triste. Transformar, depois, em físico o que até então é só sentimento: palavras e palavras e palavras. Não procuro lógica nesse processo, é essencial que ele seja espontâneo e natural. Pelo menos pra mim. Minhas percepções são exatamente o que eu vejo. O que acontece é uma vontade de registro dessas coisas que me vêm aos olhos, e ela vem sempre, ou quase sempre, impulsivamente, como um filho que nasce sem a espera dos meses. E depois é preciso um quê de desprendimento e também de não-crítica. Ou melhor: crítica sim, mas nunca a que mata. Porque ali há uma vida – na verdade, várias. Não vivi exatamente todas elas, apenas captei. Não me é direito deixar que morram numa cesta de lixo por numa exigência de formalidades. A verdade é que não costumo me importar se está bom, se tem métrica, se tem rima, se tem nexo, cadência, ciência, postura. Respeito o natural: sai como me vem. Percebo que há ainda muito o que aprender, infinitamente, mas me permito o tempo, porque é um trabalho também de maturidade. Não só em relação ao correr dos dedos, mas ao correr dos dias. Os olhos é que amadurecem. E a percepção vai ficando plena. Até o dia em que você se vê dando conselhos e escrevendo frases que os outros adotam - imagino.

O ofício de sentir... Que bom seria. Hora extra seria um prazer. Quando é demais sentir, me diga? É involuntário, inclusive. O pagamento, o suficiente para continuar vivendo – e conseqüentemente, sentindo. Seriam muitos os meus colegas de trabalho, tudo, na verdade. O escritório? Qualquer lugar. Qualquer com toda a sua abrangência.

São felizes os que vivem pra sentir, eu acho. São também infelizes, porque é preciso ser um pouco para o fazer.

Me deliciei nessa possibilidade, esparramei na cadeira do escritório, a leveza já vinha chegando. Mas o relógio acusa tempo esgotado. Um job grande me espera e minhas idéias, por agora, precisam anunciar um shopping. Enquanto isso, vou guardando as que um dia - pela força desse meu sentir - vão anunciar a vida.

posted by CAMILA LORDELO | 6:09 PM
com aspas:


Sexta-feira, Janeiro 30, 2009

blue

Meus sonhos
E vontades
Caminham sós

Por mais que eu insista
Por mais que eu tente
Por mais que exercite
Caminham sós

Minha estrada se mantém reta
Pelo medo da solidão
Me esquivo das pequenas entradas
Que namoro
No rumo dos passos

No ecoar do meu grito
É só comigo
Que converso

No abandonar dos meus planos
Finjo consolo
Nos meus versos

posted by CAMILA LORDELO | 11:34 AM
com aspas:


Sexta-feira, Janeiro 09, 2009

outros paraísos

Bocas
E caminhos
Sem juízo
Outros paraísos
Onde haja sol
E amor
Sem pudor
O medo fica pra trás
- Quem nessa vida
não é capaz
de amar?

Peito aberto
Muitos versos
Mais sorrisos
Todos os motivos
Pra se ficar até mais tarde
No coração
Pra falar sem a barreira
da razão
Tempo é coisa rara demais
Pra se perder

posted by CAMILA LORDELO | 7:54 PM
com aspas:


Quarta-feira, Dezembro 10, 2008

100 graus celsius

Intensa
Viva
Toda
Tudo o que eu quero
Eu quero pra ontem
Tudo o que toca
Me arrepia
Quem me quer de verdade
Me tem por inteira
Tudo em meu corpo
Me denuncia

posted by CAMILA LORDELO | 5:53 PM
com aspas:


Quarta-feira, Novembro 19, 2008

19.11

Para certezas, silencio. Um exercício difícil, já que o que desespera grita. (Tudo me desespera). Mas é preciso. Procuro me distrair, meus olhos anseiam, querendo disfarçar o silêncio. Abafar as agonias. Esperar, mais despretensiosamente, que elas se aquietem, discutam, se acertem. Como se não fosse eu mesma parte desse processo! Entende? Sei não se é justo comigo. Talvez seja autodefesa. Tapando os ouvidos para não me assustar com os fogos. Me divido em duas: a que necessita de ordem e a que tanto deseja alívio. Determino, com ares de mãe: entendam-se.

As ruas parecem calmas, aqui do alto o mar anda verde, cristalino e convidativo. Vejo as pessoas acontecendo na orla, suando seus prazeres, tomando um ar no Cristo. Adoro parar nesse semáforo. De meu caminho eu sei quase nada, a não ser essa parada aqui. Acho que nunca peguei esse semáforo aberto em todos esses anos. Presente da vida. Um cartão postal na minha espera, todo santo dia.

Silencio. Daqui a pouco, dezembro, semana que vem, férias, e, por enquanto, isso é tudo o que tenho de certo em mim.

posted by CAMILA LORDELO | 12:34 PM
com aspas:
idos
colírio para a alma